Amor & Etc.

AMAR ATÉ QUE PONTO?

Como vivemos o amor depois dos 40 anos? O que é que ainda estamos dispostos a fazer por nós e pelo outro? Até que ponto queremos ou conseguimos ceder tempo e espaço para construir uma relação? O que é que ainda conseguimos mudar em nós e o que podemos esperar que o outro mude?

Depois dos 40 já vivemos metade da nossa vida. Criámos hábitos, vícios, manias. Sabemos o que gostamos e o que não gostamos em nós e nos outros. Conhecemos os nossos defeitos e as nossas qualidades. Ou pensamos que conhecemos, o que às vezes ainda complica mais a realidade. Começamos a aprender a viver com algumas limitações: dormimos menos horas, as dioptrias aumentam, os nossos pais precisam cada vez mais de nós e os filhos cada vez menos, temos menos tolerância para tudo aquilo que não consideramos importante. Emborramos com palavras e gestos que há dez ou vinte anos não nos faziam mossa nenhuma. Somos mais céticos, mas quando caímos, dói mais. E as feridas demoram mais tempo a fechar. As físicas e as outras. Entusiasmamo-nos com menos ingenuidade e apaixonamo-nos com maior profundidade. No fundo, de forma consciente ou inconsciente, escolhemos mais. Mas nem sempre escolhemos melhor. E entre nós há ainda quem sinta o mundo a encolher à sua volta e acredite que as escolhas serão sempre mais e mais escassas. Muitos trocaram sonhos nunca realizados por uma realidade conformada. Mas nem todos deixaram de sonhar.

Muitos trocaram sonhos nunca realizados por uma realidade conformada. Mas nem todos deixaram de sonhar.

Depois dos 40, quando tudo parece simplificar-se, afinal o amor é ainda mais complicado. Já carregamos metade de uma vida com casamentos e separações, traumas e desilusões. Aquele primeiro namorado que reaparece, mas já perdeu o encanto, as amigas que ficam doentes e algumas não resistem. Surgem as primeiras mazelas e aparecem as primeiras rugas. E no entanto, se encontrarmos alguém que nos atrai, com quem partilhamos interesses, convicções, valores e vontades, e se esse alguém se interessar por nós, em que medida estamos ainda disponíveis para arriscar, para abandonar a nossa zona de conforto e mudar de vida? Em última análise, até que ponto estamos ainda disponíveis para amar?

Nós somos a última geração Disney e a primeira dos vídeos pornográficos de livre acesso. Somos a Geração que copiou as quatro miúdas de O Sexo & a Cidade, mas que ainda cede ao charme misógino e machista de Don Draper. Temos saudades das bolachas Belinhas e das sombrinhas de chocolate da Regina quando eram gordinhas. Ainda preferimos telefonar em vez de enviar WhatsAps. Não acabamos relações por SMS. Muitos entre nós somos filhos de casais que nunca se separaram. Quisemos tudo: carreiras brilhantes, casamentos perfeitos, filhos inteligentes, viagens, desporto e aventuras. Entrámos sem receio nem pudor na segunda e terceira volta das uniões de facto, juntando trapos e filhos como quem muda de camisa. Habituámo-nos a pensar que podíamos ter tudo e por isso, não precisávamos de fazer escolhas.

Temos saudades das bolachas Belinhas e das sombrinhas de chocolate da Regina quando eram gordinhas. Ainda preferimos telefonar em vez de enviar WhatsAps.

Mas a vida acaba sempre por nos trocar as voltas: apaixonamo-nos por pessoas pouco disponíveis ou aborrecemo-nos quando a pessoa que sempre fez tudo por nós continua ao nosso lado. A ambivalência profunda entre aquilo que ainda consideramos que é correto e aquilo que nos apetece é o nosso ponto fraco. Fomos adultos muito cedo e, como é normal nas crianças precoces, demorámos e vamos ainda demorar muito tempo a amadurecer. E no entanto, alguns de nós ainda sonham com a eterna busca de um amor ideal, acreditando no poder da dedicação total e da fidelidade incondicional. Alguns de nós ainda sonham ser aquele casal perfeito para quem os outros olham com admiração e orgulho. Como se a perfeição pudesse existir. A perfeição é uma invenção maléfica, tal como a ideia da eterna juventude ou a armadilha do amor romântico.

Fomos adultos muito cedo e, como é normal nas crianças precoces, demorámos e vamos ainda demorar muito tempo a amadurecer.

Somos a Geração X e tantos de nós vivem em encruzilhadas, se não assumidas, certamente secretas. Mas fazemos o nosso caminho o melhor que conseguimos. Aprendemos a reciclar o lixo, muitos de nós com os nossos filhos. E a olhar para o planeta através dos olhos deles. Ainda há muito por fazer, mas para a frente é que é o caminho. Em solidão ou em união, quase sempre em favor da verdade. Somos a Geração X para o bem e para o mal, na qual serão felizes aqueles que ainda conseguirem ir mais longe para construir relações sérias e duradouras, dentro e fora de casa.

by Margarida Rebelo Pinto