Amor & Etc.

Namorámos 3 meses, um namoro inocente a quase puro, porque ele sabia que não podia sequer tentar ir para a cama comigo. Eu era uma menina respeitável, filha de pessoas conhecidas dos pais dele e sobretudo a irmã mais nova da namorada do amigo. Íamos ao cinema, bebíamos cafés em todas as pastelarias do bairro e às vezes passávamos a tarde casa dele aos beijos e a ouvir música. Os pais dele eram intelectuais de esquerda, gente esclarecida e moderna a que mais tarde a elite mais à direita onde se situavam os meus pais apelidavam em tom sarcástico a Esquerda Caviar porque deram em grandes burgueses que andavam de Mercedes e de BMW mas tinham na sala um poster do Che Guevara, personagem do qual eu nunca ouvira falar. O rapaz falava de política comigo como quem dava palestras a uma plateia universitária e a sua eloquência dava-me tanto a volta à cabeça como o seu corpo. Tinha os ombros largos e um olhar penetrante, os olhos achinesados e a boca fina, o cabelo era farto e muito liso, um bocado à moda do Luís Represas quando este ainda nem tinha gravado o seu primeiro disco, e uma voz melada, maviosa, que me enfeitiçava como os encantadores de serpentes quando tocam a sua flauta. Também já ouvi dizer que as serpentes são surdas e que é o movimento executado pelos encantadores enquanto balanceiam o instrumento que as faz dançar, mas isso agora não vem ao caso, o que interessa é o efeito final. E o efeito final é que aquele rapaz me enfeitiçou de tal forma que forrei o placard de cortiça do meu quarto com fotografias dele e cheguei a ver-me em sonhos a subir ao altar vestida de branco onde ele me esperava, muito chique, de fato escuro e gravata de seda lisa de uma côr suave.

Quando, meses mais tarde, me trocou por uma amiga minha mais velha que já não era virgem, possuindo por isso ferramentas de sedução com as quais me era impossível competir, chorei como uma criança durante semanas e senti o coração a partir-se em mil bocados invisíveis, tal e qual como um vidro se desfaz em milhares de pedaços naquelas cenas dos filmes de ação em que bons e maus voam pelas montras de bares ou janelas de quartos de hotel.

Nessa época não sabia que o vidro que é quebrado nas cenas de cinema com grande efeito plástico não é mais do que açúcar que se estilhaça em mil partículas com grande efeito plástico. As minhas lágrimas sabiam a sal, eu fungava sem parar, perdi o ânimo e fui-me mesmo abaixo. Perder o primeiro namorado por outra é chato, perdê-lo para uma amiga e ficar sem os dois, deixa qualquer miúda de 15 anos de rastos. Mas afinal foi tudo uma grande sorte, porque o tempo revelou que era um tipo horrível. Erros de casting, quem não os fez, que atire a primeira pedra.

by Margarida Rebelo Pinto in Amor & Etc @M magazine

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