Amor & Etc.

O MEU PRIMEIRO AMOR, OU, COMO QUASE SEMPRE ACONTECE, O MEU PRIMEIRO ERRO DE CASTING

Tinha 15 anos quando me apaixonei pela primeira vez.

Digo que me apaixonei, porque foi a primeira vez que me encantei por um rapaz e chorei por ele. Na verdade, não sei se foi mesmo paixão, mas lembro-me de ter sentido borboletas na barriga, de ter sofrido de insónias e de ter provado o sabor amargo do ciúme. Talvez seja isso que construiu na minha memória a ideia da primeira paixão.

Antes disso já me tinha interessado por um tímido colega de turma só porque ele tinha olhos azuis, e mais tarde pelo primo de uma amiga pela mesma razão, e depois ainda por outro rapaz no 7º ano do liceu, que por acaso também tinha os olhos da mesma cor. Coincidência? Talvez não. O que aconteceu com estes rapazes é que o primeiro nunca conversou comigo porque era muito tímido, o segundo nunca me tocou a não ser quando dançávamos slow nas festas de anos dessa minha amiga e o terceiro, o homem que me deu o primeiro beijo na boca da minha vida, era parvo, convencido, namoriscava todas e mais alguma e além disso aquele beijo soube-me horrivelmente, parecia que estava a lamber o fundo de um lata de atum. Posto isto, acho que estes três não contam, portanto o primeiro foi mesmo o que me fez sonhar que um dia mais tarde me iria casar com ele.

Sonhava acordada e a também a dormir, porque com 15 anos e a minha vida era um bocado chata, como são todas as vidas de todos os adolescentes. Todos os dias apanhava o 33 para atravessar a cidade e ir para o Liceu D. Filipa de Lencastre na companhia do meu adorável irmão que andava no Liceu Camões a duas paragens de autocarro a seguir e voltava sozinha outra vez no 33. A viagem durava meia hora e nessa altura ainda não havia mp3 – nem sequer havia walkman, que entretanto também já deixou de ser fabricado – e portanto eu tinha duas hipóteses: ou ouvia as conversas das outras pessoas que viajam no autocarro comigo, ou fechava-me no maravilhoso universo da minha imaginação e sonhava com o futuro. Quase sempre começava com a primeira para rapidamente me perder na segunda, onde ainda hoje vivo mergulhada, uma realidade paralela a que os escritores gostam de chamar o seu mundo.

Apaixonei-me por aquele rapaz porque ele era bonito e inteligente e também porque era insolente, rápido e precoce como eu. Convidava-me para beber cafés, oferecia-me cassetes de boa música gravadas por ele, escrevia-me bilhetes e cartões que deixava na caixa do correio, telefonava-me todos os dias, ia a minha casa visitar-me e chegou a ir-me buscar à porta do liceu que era na outra ponta da cidade, para me acompanhar de autocarro até à porta de casa. Eu estava fascinada com tanto desvelo, mas havia nele qualquer coisa que me assustava e por isso resistia estoicamente. Até ao dia em que, depois de termos ido beber um café ele se sentou num banco de jardim e começou a chorar. Meses mais tarde confessou-me sem culpa que tinha feito uma grande fita, que aquilo era tudo a fingir, mas que ele já não sabia como me dar a volta e usou o choro como último recurso. Eram lágrimas de crocodilo, mas a cena resultou em cheio. Eu tinha 15 anos, era virgem de cabeça e do resto, ter um rapaz de 16 anos com 1.85 inteligente e giro sentado num banco a soluçar por mim porque eu não o amava, foi tiro e queda.

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