Ser mãe é lindo, ser mulher é importante, mas ser feliz é vital. 

A verdade pura e crua é que depois do segundo filho minha vida nunca mais fui a mesma! Nem aquela de 10 anos atrás nem tão pouco aquela de 3 anos atrás, quando quase convencida e feliz, tinha a “quase certeza” de que teria optado por ter filho único, ou melhor, filha única. Ela, dócil, altruísta, meiga, pirracenta, mas compreensível. Ela, a responsável por mais uma vida em nossas vidas.
Pensando no que nunca mais foi o mesmo, lembrei-me do meu cabelo exótico, das unhas pintadas, das pernas depiladas… poxa, acho que eu gostava mesmo daquilo. Tudo aquilo que já não me pertence mais.

Ser mãe é lindo, ser mulher é importante…

Numa tentativa romântica, no pós-parto do Matteo, num clima mais ou menos excitante com o meu marido, lembrei-me de que uma das pernas, por conta da pirraça do Matteo e dos trabalhos de escola da Leticia, tinha ficado por depilar. Pois é, uma lisa e outra peluda. Pensava eu, embaixo do homem: será a direita ou a esquerda? Pra que lado eu me viro? Claro, porque além de acudir as pirraças, ajudar nos TPCs[1], preparar o menu da semana, os lanches da escola, a roupa, a casa, as consultas médicas, a organização mental da família e trabalhar fora de casa… me perdi agora, mas retomo este argumento mais à frente… temos de ter consciência que não podemos perder a nossa feminilidade. É ela sim! Acreditem, é ela que salva as relações amorosas. Não estou falando de relações duradouras. Há quem viva uma vida inteira junto com outra pessoa por motivos que só ela, os dois, ou poucos sabem quais são. E se assim entenderem e resistirem, que o façam. Mas não é pra mim! Não, pra mim não dá. Eu preciso ser feliz! Sentir alguma alegria em quem está perto de mim. Não consigo ser refém nem terrorista.
E foi assim, depois de ultrapassar um sentimento turbulento, que resolvi encarar as verdades. Verdades minhas e de muitas outras mulheres incapazes de assumirem que a carga horária pessoal e profissional quotidiana tem “dado cabo” da vida romântica de qualquer criatura.
Se você ainda não passou por isso, deve sofrer de um outro mal qualquer, não menos indolor, causado por alguma renúncia, perfeccionismo ou excesso de sorte, daqueles invejáveis. Se calhar, o meu texto não lhe trará muito prazer… Mas se você é uma de nós, destas que enfrentam uma batalha todos os dias, para se manterem felizes, ah! Então vai ficar comigo até o fim e quem sabe entre uma linha e outra, vamos dar boas risadas, sentindo a necessidade de um dia encontrar a melhor amiga para beber um “copo” e rirem de vocês próprias! Porque não existe nada de mais consolador neste mundo do que rirmos da nossa desgraça! É exatamente nesse momento que atingimos o tão sonhado estado de graça.
Não sou feminista, mas francamente, falando, “de mulher pra mulher”, fizemos um grande estrago no mundo. E continuamos a estraga-lo dia-pós-dia.
Quem foi mesmo que disse que a mulher tem que trabalhar fora e cuidar de tudo sozinha dentro duma casa?

Quem foi que disse que se a criança for com o bibe[2] sem passar a ferro, sem lanche, rabugento ou com sono para escola a culpa é da mãe? Sim, aquela que não cuida direito. Quem foi mesmo que disse isso? Pois foi. Foi, é, e sempre será uma de nós a dizer tamanha asneira! Uma que talvez não tivesse tido filhos ou que não se lembrasse mais de como é ter um filho pequeno. Ou outra que, inocentemente, coloca a própria “cabeça a prémio”, só para rebaixar alguém da mesma categoria.
Pois, retomando… a culpa até poderia ser do pai, que também teria assumido as tantas tarefas “destinadas” a uma mulher e que além de tudo, teria ele falhado como a tal “mortal mulher”, mas não. Somos muito adiantadas, portanto fomos nós a cometer mais esta gafe.
Quando ouvi de uma amiga, com quem tenho alguma intimidade, que se eu exigisse demais do marido na partilha das obrigações da casa e com os filhos, eu estragaria a minha relação amorosa, fiquei meio murcha, sem graça, sem cor. Estragar o quê? Pensei: o que já está estragado? Não! Não posso aceitar isso. Foi nesse dia que achei que fosse hora de falar sobre o tema.
Era urgente acordar pra vida, porque liberdade não é só poder votar, entrar na faculdade de cabeça erguida, usar calças, ou sabe-se lá… tomar um drink sozinha num bar, sem ser assediada por um homem. Liberdade é ter vida pessoal. “Pessoa”. Vida comigo própria. Tempo, qualquer um, mas de qualidade. E isso, eu já não garantia ter naquele momento.
E vida à dois? Ah, esta se eu acordei em tempo, talvez eu consiga decifrar: é dividir em dois, o melhor e o pior. É dar o tempo necessário para ele na casa de banho, mas é lembrar-me que vez ou outra, tomar um banho demorado também não irá matar ninguém, porque ele, o distinto parceiro vai estar lá fora para socorrer nossos filhos dos perigos que eles se colocam pelo excesso de energia que, por falta de mais tempo, não levamos para gastarem no parque ou na praia que estão aqui, bem pertinho de nós!
E foi assim, apesar de me sentir numa constante posição de refém, que decidi ir mais dentro de mim e ver algo incrível. Algo que somente eu via. Algo que se eu quisesse mostrar pra alguém, eu teria de ter um grande poder de comunicação, porque não seria fácil com uma simples ecografia. Não foi fácil, mas lá consegui… trazer cá pra fora o meu grito de socorro. Porque ser mãe é lindo, ser mulher é importante, mas ser feliz é vital.


[1] TPC – Trabalho para casa.

[2] Jaleco ou uniforme no Brasil.

by Rosana António



by Rosana António

Escritora, Autora, Professora