“Quebrar o silêncio”

por Angelo Fernandes – Fundador e Presidente da Quebrar o Silêncio

Para um homem que foi vítima de violência sexual nem sempre é fácil compreender a sua história de abuso. É comum que tenha dúvidas relativas ao que se passou e sobre os seus próprios sentimentos, nomeadamente quando também foi vítima de um processo de manipulação que resulta, na maioria dos casos, na fabricação de uma narrativa que silencia os homens durante anos.

Quando se é criança, é natural que não se tenha a capacidade intelectual de compreender que foi ou está a ser vítima de violência sexual. O abusador que manipula a criança faz com que esta seja iludida e levada a acreditar numa realidade fabricada pelo adulto. Esta manipulação pode demorar meses para que, devagar e pacientemente, o abusador consiga ganhar a amizade e a confiança da criança. De outro modo, e sem esta preparação, o risco de ser identificado como pedófilo poderia ser alto. Por isso, antes de chegar ao contacto físico sexualizado e à dessensibilização ao toque, é comum que o abusador não tenha quaisquer comportamentos que sejam interpretados como abuso sexual ou atitudes perigosas desse ponto de vista.

A verdade é que os abusadores não só manipulam e seduzem as crianças, mas também as suas famílias de modo a estabelecer uma rede de segurança para si. Criam de si uma imagem de alguém de confiança, uma referência para a comunidade. Se o abusador fosse alguém com ar duvidoso seria mais fácil “encaixar” esta pessoa na ideia do molestador de crianças. Por isso é fulcral que seja visto por todos como alguém amigo, disponível, socialmente funcional, charmoso, etc. Assim, na eventualidade de a criança partilhar que foi abusada, o que acontece raramente, essa partilha será rejeitada em prol da defesa daquele “amigo”. Mas que não haja dúvidas: todos os seus passos e cada interação que o abusador tem com a família e, em especial com a criança, são pensados e articulados com um único objetivo – abusar sexualmente da criança.

Sabemos que há casos em que todo este processo, muito anterior a qualquer contacto físico ou sexualizado, envolve de tal modo a criança que mesmo quando  é questionada por alguém, como por exemplo os seus pais, a criança não partilha o abuso de que foi vítima. A manipulação é de tal forma eficiente que há casos em que as próprias crianças re-afirmam e asseguram que não houve nunca uma situação inapropriada ou sexualizada por parte daquela pessoa. Sabemos também que à medida que os rapazes vão crescendo, diminui a probabilidade de contarem a alguém dos abusos.

Na maioria dos casos de violência sexual de meninos, estes procuram apoio mais de 20 após o abuso. Por isso, é preciso respeitar o tempo da vítima. É um tempo interno, único a cada homem, de uma viagem que passa por enfrentar aquela narrativa que lhes foi imposta. Muitas vezes, apenas em idade adulta é que os sobreviventes começam por reconhecer que aquela “relação” não era de todo uma relação, mas sim uma história de abuso. É um desconstruir doloroso, que traz um reconhecimento pungente e um processo complexo, com vista à libertação e à recuperação do trauma.

Por vezes, pode ser o nascimento de um filho que desencadeia em si a confirmação de que as crianças são inocentes e manipuláveis pelos abusadores, pode ser uma notícia sobre um caso de abuso, uma conversa entre amigos ou o testemunho de um outro homem que passou por uma situação semelhante. Por vezes, após anos e anos a sofrer em silêncio, o homem sobrevivente pode ter chegado a uma fase de ruptura e precisa de desabafar com alguém, iniciando, assim, o seu processo de recuperação.

A verdade é que são anos e anos de um sofrimento silencioso que passa despercebido até junto das pessoas mais próximas e familiares. Por isso é importante que sempre que um sobrevivente partilha a sua história, esta seja bem recebida e validada, e que se acredite nas suas palavras. Porque o acto de partilhar é um risco e é um acto de força e coragem. Sempre que as palavras de um sobrevivente são questionadas e atacadas, está-se a contribuir para manter os outros sobreviventes – aqueles que não partilharam ainda as suas histórias – no silêncio.

Se precisar de apoio contacte a associação Quebrar o Silêncio – apoio especializado para homens vítimas de violência sexual. Contactos: apoio@quebrarosilencio.pt 910 846 589
#quebrarosilencio

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